abril 10, 2007

Capítulo III - Da Paixão ao Ódio

Desde que a barreira desaparecera, acabara para sempre o feitiço de Jessica Yaroburshi. Yessimna e Miguel eram venerados como deuses e Jessica era abominada como um demónio do mal. Pouca gente a conseguia compreender. Pouca gente a conseguia amar ainda.
Alexandre, no entanto, continuava a amá-la. Mesmo depois de tudo o que aconteceu, continuava a compreendê-la no mais profundo de si. Mesmo depois de ter conhecido as suas dúvidas. Ele amava-a e lembrar-se-ia sempre dela. Não achava justo ser punido por algo que não fez, por um sonho incontrolável, um acto involuntário. Mas amava-a.
Naquele momento, dançava sozinho... O som? A música escolhida por Kyle, na sua festa de inauguração da grande casa que o jovem possuía em Waterfall. O clima era quente, a casa cheia, o ambiente alegre.

Kyle, um jovem doce e atraente, possuía algumas semelhanças com a ternurenta e conhecida Brina. Essa tinha chegado à festa sensivelmente mais tarde e Kyle ficara sem perceber a razão de ter reparado tanto nela. A sua presença destacava-se, sem dúvida. O seu rosto pálido e gracioso evidenciava-se no meio das luzes, os seus olhos claros eram enormes como o céu e brilhavam com um toque de doçura. Kyle tinha a sensação que esses olhos o perseguiam e escondia o seu rosto, envergonhado. Foi subitamente interrompido pela ninfa Hilloya. Alegre como sempre, de cabelos ruivos a dançar ao vento e o corpo em movimento. Kyle dançou com ela mas os seus olhos e alma estavam em Brina. Somente em Brina e nas estrelas.
"Estrelas brilhantes...tão sem poder...É a minha beleza também tão inútil ... Porque não a podem transformar numa alma capaz e corajosa?"
Enquanto dançava com Hilloya, olhava à sua volta. Brina era apenas mais uma que olhava para ele. Olhares sedutores de belas mulheres cercavam-no. Então, de repente, tudo na sua alma viva escureceu...Brina era apenas mais uma e assim odiava a sua beleza, a sua timidez e a inocência do seu sorriso.
Mas a noite sorria para as estrelas e Brina para Kyle. Ele cerrou os punhos e caminhou na direcção dele. Pareceu-lhe notar o esboço de um sorriso

- Será que me poderia dar...a honra desta dança?

Brina acenou com a cabeça afirmativamente. Divas e ninfas invejavam Brina. A música acabou. E seguir-se-ia-se mais uma. E outra. E mais uma ainda. Brina nos braços de Kyle toda a noite. As suas unhas prenderam-se no colarinho dele e não o largaram mais.

Noutro canto, era Yessimna que não largava Miguel. A paz deles finalmente merecida. Enquanto os olhos de Miguel hesitavam no olhar fixo e permanente, os olhos dela fechavam-se apenas, de felicidade.
- Nada me separaria de ti... - sorriu ela, para depois soltar uma gargalhada - Mas por uns minutos, aquela menina ali separa-nos.
Contemplou Sahara, a sua irmã mais nova, encostada a um canto. Miguel deixou que os dedos suaves da amada se deprendessem aos poucos da sua mão e dirigiu-se até ao balcão.
Os cabelos escuros de Sahara tapavalham-se a face corada.

- Passa-se alguma coisa? - perguntou Yessimna, ao se aproximar.
- Não...nada... Apenas me sinto sozinha.
- Tens tempo para muita coisa...És muito jovem...

Sahara tentou sorrir, numa tentativa em vão. Apontou o olhar em direcção ao balcão, onde estava Miguel, e deixou que a irmã se afastasse.
Nessa altura, Sahara dedicou-se a vaguear pelo salão enorme. Tudo correria bem se não se tivesse esbarrado contra um jovem atraente desconhecido.
O choque fê-lo cair.
- Perdão ! - pediu ela, estendendo a mão ao homem misterioso.
Ele aceitou-a, segurando-a para se levantar.
- Não faz mal...Quem és? O meu nome é Vincent.
- Eu chamo-me Sahara. - apresentou-se ela, sorridente.
Trazia um vestido cor-de-rosa de gingelina com um decote em V que abria na cintura com uma saia de chiffon pelos tornozelos. No pescoço, um colar comprido de ouro e safiras.
Vincent contemplou a jovem por instantes. Após isso, convidou-a para uma dança. Sahara aceitou de imediato, radiante. Admirou os seus olhos misteriosos , escuros e brilhantes. Faziam-na sentir...apaixonada.

Yessimna observava a irmãzinha ao longe, com um receio próprio de quem se preocupa.

- Acalma-te amor... - disse Miguel - Ela já tem 16 anos..mais que idade suficiente para saber o que faz. Mais que idade para se poder envolver com quem quiser...

- Mas tu não percebes...ela é tão frágil e inocente... - ripostou ela.

- Quando tinhas a idade dela, alguém te protegeu? Ela é forte..tal como tu o és e sempre foste.

Lá no fundo, Yessimna concordava. Então deixou-se ficar nos braços de Miguel até a noite acabar.
Até a festa encerrar.
Até Brina ter-se despedido de Kyle e lhe ter cravado um pedaço na sua memória.

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Naquela manhã, Yessimna acordaria a uma hora estranhamente tardia.
No entanto, Shara ainda parecia dormir profundamente. A irmã encolheu os ombros, tentando ignorar as preocupações. Na noite anterior, quando ela chegara a casa, a pequena Sahara ainda não se encontrava lá. A tentação de Yessimna era acordá-la de imediato e exigir explicações. Mas controlou-se. Brevemente, receberia a visita de Miguel e esquecer-se-ia de tudo, lembrando-se que Sahara era apenas uma adolescente a viver uma fase um pouco diferente.

Noutro lugar, à mesma hora, no meio dos lençóis de cetim, Sadette acordava ao lado de Alexandre. Na noite anterior, a bela diva fizera com que o homem da sua vida viesse a sua casa e adormecesse na sua cama. Mas naquela manhã, teria esperanças de algo mais...
No entanto, quando Alexandre acorda, é o nome de Jessica que ele pronuncia.

- Quem? - indignou-se Sadette.

Alexandre fecha os olhos.

- O meu amor verdadeiro...Jessica... Jesica Yaroburshi. A mulher que eu amo.

Sadette riu-se disfarçadamente e voltou-se com a almofada a cobrir-lhe o rosto envergonhado. O lenço de opala e renda caiu-lhe e Alexandre segurou nele.

- Perdoa-me, Sadette...por não te corresponder.
- Eu ... Eu já estou habituada.
Tentou dar-lhe um sorriso minimamente estimulante e arrancou-lhe o lenço das mãos.
Quando Alexandre saiu, ela começou a chorar, até cobrir a almofada de lágrimas.
De seguida, atirou-a contra a parede

- Odeio-te! - gritou.

Era um dia diferente para toda a gente.
Talvez fosse feitiço da festa de Kyle...Talvez bebidas a mais...
Mesmo Jessica, que não comparecera à festa, sentia-se cansada e em baixo. Teve que acordar, à força, já que batiam à porta. Do quarto à entrada, era como se fossem quilómetros. Arrastava os pés pesadamente, a camisa comprida de cetim e o robe de seda pelo chão.
Abriu a porta, ainda distraída. Alexandre entrou muito depressa e trancou a porta atrás de si. Depois, guardou a chave.
Jessica ainda se encontrava parada no mesmo lugar. O coração tinha começado a bater aceleradamente.

- Então, não dizes nada? - perguntou ele.

Jessica recuou, tentando evitar que os seus olhos ficassem banhados em lágrimas.

- Por favor..limita-te a sair daqui. A porta está atrás de ti. É simples demais.
- Hoje não...- ripostou Alexandre - Hoje, querida, tu vais-me ouvir!

Jessica suspirou e encostou-se à parede.
- Eu nunca te traí. - continuou ele - Nunca! Yessimna é belíssima e tu sabes que ela o é. No entanto, eu nunca toquei nela. Essa é a verdade. Nunca precisei dela. E eu preciso de ti! E se traição é ter aberto a boca de espanto perante a beleza da tua irmã, então... perdoa-me.

Ajoelhou-se aos pés da sacerdotisa. Ela cobriu o rosto com um véu muito escuro e voltou-lhe as costas.
- Agora já podes sair.
- Não! - gritou ele.

Aproximou-se dela e prendeu-lhe os braços.
- Não te mexas , por favor.
Fixou os seus olhos no véu negro e afastou-o. Acariciou-lhe o rosto, sentindo-a estremecer.
- Nega que sentes algo por mim.
- Eu nego.
- Isso é mentira...
Alexandre sentia um choque dentro de si mesmo. Foi recuando em pequenos passos até à porta, murmurando sempre a mesma frase: "Isso é mentira..."
- É mentira! - gritou finalmente, já encostado à porta da saída - Mas se é assim que queres...
- Espera, espera... - pediu Jessica, aflita, ao vê-lo abrir a porta.
- Que foi agora?
- Bem ...eu ... - tentou arranjar uma desculpa rapidamente - Leva este véu em que tocaste. Ele tornou-se inválido desde esse momento.

E atirou-lhe o véu. Alexandre, segurando nele, despediu-se com um sorriso triste.
"Nem todos os sorrisos são de felicidade..."
Assim que a porta bateu, Jessica atirou-se para a cama, de lágrimas por todo o rosto.
O quarto cada vez mais escuro...A alma cada vez mais enraivecida.
- Como eu te odeio! - gritava ela.

Levantou-se, tentou erguer a cabeça, limpar as lágrimas, sair do maldito quarto, da maldita casa!
A primeira pessoa pela qual passou : Brina.
- Será que me perdoam? O mal que fiz?
Brina sorriu.
- Jessica, eu sempre te compreendi. Por amor...cometem-se erros, fazem-se pecados, passam-se tormentas...
Abraçou-a. Mas Jessica tinha muito que fazer... Tinha mais umas quantas pessoas para abraçar. Para pedir perdão.

Brina despediu-se da sacerdotisa e lembrou-se de ir visitar Sahara, sua grande amiga desde à anos. Entrou em sua casa, sem pedir licença, como sempre fazia.
- Sahara , estás em casa? - chamou alto.
Tudo estava escuro, o corredor, o quarto.
Era fim de tarde e Brina reparou que a amiga ainda dormia.
- Sahara... - repetiu mais baixinho, ao ouvido.
Sahara espreguiçou-se e sentou-se a um canto da cama.
- Desculpa-me...Estás aqui à muito tempo? Ontem, cheguei relativamente tarde.
- A sério, mas porquê?

A diva cobriu-se um pouco com os lençóis. Quando se descobriu novamente, olhou para todo o seu corpo, num sentimento de culpa e ódio.
- Que se passa? - perguntou Brina.
- Ontem à noite... Vincent convidou-me para um serão em casa dele. E o resto já sabes.
- Não pode ser...
Mas Sahara afirmava com acenos de cabeça. Lágrimas teimavam-lhe em cair pelo rosto abaixo.
- Eu não queria...mas aconteceu.
- Já realizaste o feitiço pós-nupcial?
- Foi a primeira coisa que eu fiz...
- E?
- E estou grávida.

Sahara deitou-se na cama, estendida.
- Não vou contar nada à minha irmã Yessimna. Eu seria uma desilusão para ela. As tradições de Waterfall jamais permitirão que eu case de branco com as flores da castidade na mão...Estou condenada ao fracasso dos meus sonhos. Sou um desgosto.

Abraçou-se a Brina.
- Acalma-te...Pensa agora no teu filho. O pai do bebé?
- Eu odeio-o.

Fim do Capítulo III

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A História


Uma história (cheia de fantasia) escrita por mim quando tinha os meus 14 anos de idade.
Espero que gostem.

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